Mediascan3

Este é o capítulo 3.3 da minha tese de doutorado, Imagens do Deslocamento, descrevendo o processo de MedaScan. No texto original há mais fotos.

This is chapter 3.3 of my Doctoral dissertation, Images of Displacement, describing the process of MediaScan. On the original text there are more photos.

3.3 MediaScan

Alemanha/Brasil/EUA 2003-2013

O curador e diretor de artes visuais do Centro Cultural São Paulo de 2012-2016, Marcio Harum, convidou-me com o projeto MediaScanpara uma mostra individual em 2013, parte do Programa de Fotografia. Foram muitas conversas sobre o que esperar de um trabalho com imagens estáticas em um centro cultural para público tão diverso, que recebe 40 mil visitantes por mês, com entrada popular e gratuita. Decidimos mostrar a fase 2de MediaScan. Dentre todas as conversas, as questões mais importantes foram sobre a velocidade da guerra e da mídia, que criam artificialidade, naturalizando uma matriz modificada do pensamento a partir de uma outra matriz que pode ser falsa, ou é falsa (BAUDRILLARD, 1994).

Fase 1, 2003. Colecionava imagens da mídia de catástrofes, primeiramente da televisão e também de arquivos do YouTube, vídeos amadores de testemunhas oculares desses eventos. Essa informação temporal foi fixada numa única imagem, através do reflexo de um espelho com um scannerde mesa, resultando numa anamorfose digital. Essa primeira fase utilizou-se de imagens da TV da invasão do Iraque em 2003.

2003-1


Fase 2, 2013
. MediaScan: Ondas Gigantesé composta por sete fotografias que mostram o tsunami japonês de 2011. As fotografias em primeiro momento mostram uma certa violência latente de paisagens fantasmagóricas, abstratas e quase monocromáticas. Em contemplação mais longa, revelam-se os restos de cor e artefatos digitais.Para essa fase, foi usado um scannerde mão para fixar o movimento em imagem única de vídeos caseiros, tirados do YouTube, feitos por testemunhas oculares das ondas gigantes.

10

Além de revisitar o texto do Catálogo do Programa de Fotografia 2012-2013: Conversação com Marcia Vaitsman[1] (2013) e Spectrogeologia,[2] de Marcio Harum (2013), dois livros recentes facilitaram um olhar mais focado para algumas questões abordadas em MediaScan, particularmente para relações entre a velocidade como causa-consequência do avanço da tecnologia e da mídia e o medo de catástrofes, e o medo causado pelas mudanças dessas paisagens emergentes desenhadas pela velocidade, a militarização das pesquisas tecnocientíficas, etc. O primeiro é Administration of Fear (VIRILIO; RICHARD, 2012) e o segundo é The Future (AUGÉ, 2015), que foram já citados ao longo deste texto em questões relativas à percepção da realidade, fábulas urbanas, controle desse imaginário coletivo através do medo e das identidades artificiais. Falam também da aceleração e velocidade como um fator de desorientação instrumentalizado para que a noção da realidade seja dissolvida num espetáculo controlável; sobre o medo de ameaças simbólicas e reais; da padronização e sincronização dos desejos e os sonhos, num lugar que está encolhendo como resultado da aceleração da vida. MediaScannão existe para encenar a teoria, ao contrário, desde o início, os procedimentos foram escolhidos instintivamente. Porém, é perceptível a sintonia entre proposição imagética de um e o discurso teórico, seja como resultado de estarmos olhando para as mesmas situações, seja pelo acaso. Seria inevitável falar de MediaScan sem falar da tecnologia de mídia, resultado das investigações tecnocientíficas da indústria bélica, da guerra em si, da catástrofe, da velocidade e do medo, etc. E seria inevitável que tudo isso não ressonasse com o trabalho de Virilio, Flusser ou Augé, entre vários outros contemporâneos.

Ao observar não somente o discurso da mídia mas também os diversos tempos da mídia – calculado, monetizado, disputado – como parte estratégica na construção do ambiente em que discurso vai ser endereçado, consequentemente observa-se também como a dramaticidade é construída ao incorporar som, motion graphics, infographics, etc. Nos meus trabalhos de vídeo, há a ruptura com o tempo televisivo das reportagens e com o tempo cinematográfico de Hollywood, e, ainda, com o manual de roteirização de Syd Field (2001), adotado por diversas escolas de cinema, incluindo a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Por observar como o tempo e a velocidade da mídia interferem na construção do que percebemos como real, decidi que MediaScannão poderia passar de uma imagem somente, transformando o tempo de reportagem ou o tempo de vídeo em uma só foto, fantasmagórica, irreal, forçando a velocidade a uma lentidão extrema, que faz o tempo parar, lentidão contrária à velocidade da Blitzkrieg, da desorientação, da bomba, da mídia e do medo.

“A velocidade agora indica uma essência da realidade da mesma forma que a luz no passado indicou a forma dos objetos” (VIRILIO; RICHARD, 2012, p. 41, tradução nossa). Assim também MediaScan indica essa realidade mutante que se deforma diante da rapidez da luz e da mídia, ilumina a desorientação que está por trás da veloeletricidade, da TV e no medo.

[1] Anexo 15.

[2] Anexo 16.

referências citadas nesta parte do texto

AUGÉ, M. The future. Tradução: John Howe. New York: Verso, 2015.

BAUDRILLARD, J. Simulacra and simulation. Tradução: Sheila Faria Glaser. 1 ed. Ann Arbor: University of Michigan, 1994.

FIELD, S. Manual do roteiro. Tradução: Álvaro Ramos. 14. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

VIRILIO, P.; RICHARD, B. The administration of fear. Tradução: Ames Hodges. Los Angeles: Semiotext, 2012.